Poesia

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Margens poéticas

Ser ou não ser

Ser e não-ser

Nem ser, nem não-ser

 

A linha tênue entre razão e desrazão

A espera pela fenda

Pelo descortinar de um novo modo de viver

 

Palavras secas flutuam nas águas

Não há redes capazes de pescá-las

Não há água capaz de molhá-las

 

Na superfície das palavras secas

Cada gota do rio é um verbo

Dito no silêncio perpétuo do devir

 

Gotas de palavras

Palavras secas

Não-lugar

 

Falas de superfície a superfície

Palavras ocas

Águas profundas do silêncio

 

Na margem que não se vê

A vida que não se tem

A forma que não se é

 

A casa e a brasa da palavra

O olhar perdido que atravessa os corpos

Protegido no oco da canoa

 

Flutuando em meio às palavras secas

Sedento por gotas de palavras sãs

Faminto por sons de palavras simples

 

Presença infinita

Imprescindível como a vida

Definha na linha imaginária das outras margens

 

Ausência profunda

Desfile de palavras ocas

Atravessadas por olhos e ouvidos mortos

 

Entretelas das redes

Entre as quais as palavras fogem

Correnteza fria de um tempo árido

 

Entreatos do existir

Entre os quais as palavras fluem

Gentileza exuberante de um porvir.